Álbum: Pedro Alterio | Bruno Piazza

Fotos/ Projeto Gráfico: Mariana Alterio



Dois. Uma dupla. Mas sem o qualificador que costuma vir em seguida, quando falamos em música: definitivamente, não são uma dupla sertaneja.

O fato é que Pedro Altério | Bruno Piazza (2012) é um álbum feito por uma dupla, que se não permite o adjetivo comum, também não encerra em si qualquer outro. A audição do CD é uma experiência que deve ser feita de modo atento e repetido, a fim de encontrar cada detalhe "escondido" entre as faixas.

A composição do projeto, cuidadosamente escolhida pelos dois, passeia por diversos compositores e temas. Apesar de serem extremamente autorais, Bruno e Pedro cantam e tocam vários nomes, entre Celso Viáfora e Chopin, Paulo Novaes e Satie, Rita e Rafael Altério, pais de Pedro, e Villa-Lobos. As 13 faixas oferecem uma contemplação musical que pode ser expressa perfeitamente pela palavra delicadeza.

A formação erudita de Bruno ganha um relevo maior nas três músicas instrumentais "Música dos Dois" (Pedro Altério e Bruno Piazza), "Pra Sophia II" e "Pra Sophia I" (Bruno Piazza). Nelas, o piano, de coadjuvante, torna-se ator principal, acompanhado ocasionalmente pelo quarteto de cordas com arranjo de Neymar Dias, o violão de Pedro e a dupla Gabriel Altério e Igor Pimenta, tocando bateria e baixo acústico, respectivamente. O tom dessas canções navega entre a simplicidade e a elevação, unindo a clareza da MPB com o gosto refinado do piano de Bruno.

As demais canções do disco são a prova viva de que nem só de romance vive o amor, pois como negar a presença deste em faixas como "Mãe e Só" (Celso Viáfora/ Pedro Altério/ Rafael Altério) ou "A Benção"(Celso Viáfora)?  Afinal, na primeira, temos tantas mães que é quase impossível não se sentir representado de alguma forma e, na segunda, um ode maravilhoso àqueles que proporcionam ao músico a oportunidade de manifestar sua arte, desde os primórdios (à benção quem primeiro batucou em algo oco por dentro/ à benção quem primeiro tirou música do sopro do vento) até os que, muito indiretamente, tornam possível o belo trabalho (à benção o ajudante que afia a ponta do estilete/ para o artesão equilibrar o sopro de um clarinete);

Quando o amor romântico vem à tona, a delicadeza também dá o tom. Ao contrário de paixões arrebatadoras, ele é cantado em consonância com a paz, sendo a sua realização o alcance total dela (vim pra resolver/ não pra dizer/ que tudo é triste/ (...) / buscar a nossa paz interior/ irradiar - "Paz Interior (Paulo Novaes); pra amanhecer em par, em paz/ e quanto mais, melhor/ você - "Em Paz" (Pedro Altério/ Rafael Altério/ Rita Altério) ), e mesmo as decepções ou distâncias aparecem travestidas em interpretações delicadas como "Amanhecendo" (Leo Bianchini/ Caê Rolfsen/ Pedro Viáfora), com a participação mais do que especial de Luiza Possi.

É importante notar que todas as canções são pautadas numa tríade musical importantíssima, que traduz perfeitamente todo o projeto: voz, violão e piano. Enquanto as duas primeiras representam o papel marcante de Pedro Altério, que nos remete automaticamente a esta "nova MPB" que tem surgido nos últimos anos, o último elemento nos transporta a um outro universo, distante mas que se cruza com o cotidiano, e onde podemos enxergar todo o talento incontestável de Bruno Piazza.

Por fim, gostaria de destacar aquela que talvez seja a minha música preferida: "Logradouro" (Kléber Albuquerque/ Rafael Altério). Seja pela letra extremamente tocante, seja pelo arranjo sofisticado com o qual aparece no cd, essa faixa, para mim, se destaca na interpretação de Pedro e no solo instrumental de Bruno. Não uma síntese perfeita do projeto, mas um destaque a mais nesse que álbum que já é um destaque completo.






por Isa Leite

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