Irreverência e delicadeza: as várias faces de Gustavo Galo







Uma coletânea, como tantas outras. Na verdade, costumo ser meio avessa a elas: gosto de disco fechado, conceituado. Mas resolvi ouvir. Era “Coitadinha Bem Feito – As canções de Ângela Ro Ro”, projeto de curadoria do jornalista Marcus Preto. Ali, passei por vozes conhecidas e desconhecidas, e fui me deixando levar, até quase o final. Foi ali, mais precisamente na faixa 14, que conheci uma voz que ainda me acompanharia muito.

A voz em questão pertence a Gustavo Galo, cantor e compositor, vocalista da Trupe Chá de Boldo. Com 28 anos, Galo desponta como um daqueles talentos completos, que toca, canta e compõe com maestria. Seja nas canções cheias de irreverência e bom humor da Trupe, seja nas delicadas e primorosas que figuram no seu repertório solo, que vira disco ainda esse ano, podemos ver o cuidado com que ele elabora cada melodia e letra, o tratamento minucioso e repleto de suas composições.

O desejo de ser músico é antigo: desde criança ele cultivava essa vontade. Mas foi na escola, ao lado de dois amigos que a vontade foi tomando corpo. Reunidos na casa de um deles – Daniel, filho do músico Geraldo Leite, do Grupo Rumo - os garotos ouviam a vasta coleção de discos do pai do amigo e começaram a tocá-los também. aos poucos, foram surgindo as próprias composições, mais gente foi se agregando ao grupo... Estava iniciada a Trupe Chá de Boldo, que hoje conta com treze integrantes e dois álbuns lançados, ambos tendo como principal compositor Gustavo.

O talento dele é tão ressoante que, no começo desse ano, junto a outros compositores, também foi convidado a participar do EP "Tribunal do Feicibuqui", de Tom Zé. A experiência, além de colocá-lo em contato direto com um dos maiores músicos do país, também aproximou-o de novos parceiros, como o músico Marcelo Segreto, com quem Gustavo Galo compôs uma música que entrará no repertório de seu disco solo.

O disco, aliás, é a sua mais nova ocupação. Nos últimos meses, Galo tem feito shows de repertório, onde se apresenta numa formação completamente diferente da Trupe: cello, guitarra, baixo, rodes e bateria. As composições desse projeto têm arranjo minimalista e delicado, mostrando um lado diferente do já conhecido por todos. Os parceiros do projeto, amigos de Galo, também têm seus próprios trabalhos paralelos, e a junção de Peri Pane, Zé Pi, Meno del Picchia, Gustavo Souza e Tomas Oliveira resulta em um registro doce e envolvente. O disco, como dito, deve sair ainda esse ano, o que não significa de modo algum um "abandono" da trupe por parte de Galo: segue a agenda de shows do grupo, com CD novo para o ano que vem.

O fundamental a se perceber é que ele não é só um grande compositor: Galo também tem um jeito único em cima do palco, além de ser um intérprete valoroso, especialmente pela apropriação que faz das canções, sejam dele ou não. Já é um grande músico, e tem potencial para crescer ainda mais, sozinho e com seus incontáveis parceiros.

A canção abaixo, "Cama", é de Tatá Aeroplano (amigo e um dos produtores do disco solo dele) e, em voz e violão, nos dá uma amostra do que esperar desse disco. Apenas uma amostra, é claro, porque ele é, sem dúvidas muito mais do que isso.





por Isa Leite

Comentários

  1. engraçado ler estas palavras e ver que muitas delas já passaram pela minha cabeça quando penso no Galo. acho ele fantástico no palco; ele te coloca pra dançar, faz você participar dos ritmos, dos sons. interage tudo, você com a música, com a banda, com a platéia, com o local. este vôo solo com toda certeza continuará trazendo tudo isto, mesmo que em um formato diferente.

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